sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vergonha Negra!

SIM! Vergonha...
Determinaram e legislaram em meados de 2003 que o dia 20 de Novembro celebraria a partir de então o Dia da Consciência Negra.
Politicamente falando, o dia 20 de Novembro é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Tal feriado coincide com a data de desencarne do Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que aconteceu em 1695, coincidência esta para lembrar a quase insana resistência do negro à escravidão de forma geral, desde os primeiros negros africanos que pisaram no solo brasileiro em 1594.
Mas é vergonhoso celebrar um feriado hipócrita como esse, quando muitos, inclusive negros e descendentes, estão na praia sem a menor preocupação com negros, brancos, orientais, índios, árabes, islâmicos, dentre outras etnias, raças e grupos religiosos, vítimas de preconceito e discriminação, comendo e bebendo em quiosques onde tais cozinheiros e garçons são negros ou descendentes de negros...
Mas o importante é viajar, é fritar ao sol da Praia Grande - SP... Palhaçada!
Ora, inserção social do negro?
Porque gastar neurônios ou proferir minutas com tal infâmia, se na prática o negro só é inserido na sociedade para suprir a demanda de subemprego, ou se mais, nos grupos de pagode e nossos valorosos craques do futebol? Me vem em mente o jogador de futebol Adriano que, do alto de sua carreira de sucesso, deprimiu, enterrou o pé na jaca da dependência química e, de peito aberto e para resgatar sua essência, voltou aos seus, valorizou o pé descalço no chão, a simplicidade da moradia, o mínimo de conforto e riqueza de caráter que muitos possuem no meio da favela!
Hoje continua a trilhar sua bela carreira, felizmente com valores revistos!
Voltando ao Zumbi dos Palmares, atualmente vislumbramos a imagem do Zumbi como um personagem histórico que representou o maior ícone da resistência negra na luta contra a escravidão e ao sistema escravista de um modo geral, além também de representar uma forma coletiva de manutenção da cultura africana aqui no Brasil, no período do Brasil Colonial.
Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade.
Mas é válido salientar que pesquisas atuais sobre sua importância no Quilombo dos Palmares e sua influência no povo quilombola e inúmeros mocambos (Vilas de negros, índios e brancos foragidos!), apontam para a afirmação que o próprio Zumbi mantinha escravos particulares!
Portanto, aponto a partir deste fato que o racismo, o preconceito e a prática da discriminação, de um modo geral, nada mais representam do que o poder ganancioso do Ego sobre as minorias. “Deus da Guerra”, “Fantasma Imortal” ou “Morto Vivo”, ou seja qual for a tradução correta do nome Zumbi, o seu significado para a história do Brasil e para o movimento negro é praticamente unânime: Zumbi dos Palmares é o maior ícone da resistência negra ao escravismo e de sua luta por liberdade. Os anos foram passando, mas o sonho de Zumbi permanece e sua história é contada com orgulho pelos habitantes da região onde o negro-rei pregou a liberdade!
Vale dizer também que sempre ocorreu uma valorização dos personagens históricos de cor branca. Como se a história do Brasil tivesse sido construída somente pelos europeus e seus descendentes. Imperadores, navegadores, bandeirantes, líderes militares, entre outros, foram sempre considerados heróis nacionais. No entanto, em 1789, os franceses declararam os direitos universais do homem. Tínhamos, ali, um marco para a história do ocidente que acabaria por influenciar todo o mundo. A declaração dizia, em alto e bom tom, que todos nasciam iguais, que todos tinham os mesmos direitos, que todos estavam livres de crueldade. Mesmo assim, milhares de humanos e "não-humanos" seguiam explorados, violentados e submetidos a maus-tratos. Os negros cruzavam os mares como escravos em centenas, marcando o primeiro grande genocídio da história moderna. A explicação fácil para a exploração era retórica e contraditória, mas serviu para aplacar a alma do violador, para quem os negros não faziam parte do "humano" dos direitos humanos.
Ainda hoje os negros e os não-brancos recebem salários menores, trabalham mais informalmente e são mais pobres, além de serem a minoria nas universidades e sofrerem discriminação e violência por conta do tom de pele. Em regra, não são as ações dos negros, tampouco o seu caráter, que passam pelo crivo do julgamento público, mas sua melanina.
Quando surgem políticas de promoção da igualdade, não é a política que é questionada, mas o mérito que os negros receberão, e o fato de estarem, "audaciosamente", em lugares que, segundo os preconceituosos, não lhes compete, como as universidades. Cotas, distribuição de renda e igualdade salarial não ofendem pela proposta, mas por promoverem o sustento de um estado democrático que é o igual reconhecimento de interesses.
Algo que não se faz em discurso, mas em ações, e que tira muitos da zona de conforto. Enquanto não encontrarmos - em igual porcentagem - negros doutores em meteorologia, química, física, matemática, filosofia, medicina, as cotas seguirão como uma política ridícula, hipócrita, mas lamentavelmente necessária.
Os racistas aceitam negro doutor em antropologia que estuda quilombos, mas se incomodam com o negro doutor do Supremo Tribunal Federal.
Com o perdão do veneno a escorrer pelo canto da boca, adoraria assistir de camarote um racista tomar inúmeras chibatadas de um negro "cromado"!
Atualmente existem inúmeros grupos que disseminam informações sobre a inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, discriminação policial, identificação de etnias, moda e beleza negra, etc. A "Helena" Global é protagonista... Filmes e seriados americanos já apontaram negros como Presidentes dos E.U.A., como a série "24 Horas", ou o atual filme "2012". O líder político da maior nação capitalista é descendente de negros. Mas a história se faz por meio da capacidade de resistência e de mobilização. As grandes revoluções foram silenciosas. Foi assim na Índia, com Gandhi, e foi assim nos E.U.A. quando os negros pararam de usar os ônibus públicos - e andavam quilômetros a pé - para protestar contra o Apartheid.

O ser humano, ao longo de toda a sua história, manteve certo medo, ou até mesmo receio pelas coisas diferentes do seu cotidiano. Sua análise quanto a estas coisas era baseado em seus conhecimentos não contestáveis, pois não haveria sentido acreditar em outras verdades se sua vida se manteve adequada e em um caminho retilíneo até tal diferença surgir. Essa é a base para o etnocentrismo, atitude de considerar seu meio e cultura superior a dos demais, daí surge o preconceito. Mas o que se exige de um ser que possui o raciocínio, é que antes de ter um ato de discriminação, que ele analise tal diferença, para poder compreendê-la.
Mas o ser humano, de uma forma geral, tem um talento especial para discriminar e criar zonas de conforto a partir do poder sobre as minorias e, principalmente, de encontrar argumentos que justifiquem suas escolhas. Foi e é assim com o racismo, com o machismo, com a discriminação de classe, dentre outros convencionalismos.
O dia 13 de Maio, que celebramos a Abolição da Escravatura, tem sido rejeitado pelos próprios negros e por movimentos ativistas, por enfatizar muitas vezes a "generosidade" da Princesa Isabel, ou seja, ser uma celebração da atitude de uma branca. Neste cenário, é importante citar o perigo que há no preconceito do negro contra si próprio, ou o preconceito inverso, este que temos como exemplo o bairro do Bronx, N.Y., E.U.A.!
Lá, um branco é discriminado e é vítima de violência como nós brasileiros nunca sequer imaginamos!
Evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização de qualquer raça ou classe perante a sociedade, é uma das bandeiras que devemos levantar... Por isso, pensar a democracia e a Justiça a partir da condição dos negros é pensar em nossa própria humanidade. Os não-brancos, no Brasil, são praticamente a metade da população brasileira e as mulheres, mais da metade!
Ignorar a qualidade de vida desses humanos e seus interesses é fazer a manutenção de um conceito de humano que só privilegie alguns "bem-aventurados".
Nelson Mandela acreditou na luta...
Martin Luther King articulou "I have a dream"...
Barack Obama exclamou "We can!"...
Chega de privilégios, de minorias e de inferioridade...
NAMASTE!

3 C O M E N T Á R I O (S)

Déia disse...

Eu concordo com Nelson, Martin e Obama... se os negros tomarem consciência de que são infinitamente bons... aí sim, as coisas começarão a mudar!

E esperar que alguem se lembre do motivo pelo qual é comemorado aquele feriado, hã... é pedir demais, prum povinho analfabeto de pai, mãe e presidente!

Ótima semana

bj

Tamara disse...

Pois é... Consciência??? Será que é necessário um feriado para criar consciência nas pessoas?Será que se fazem necessárias cotas nas universidades?
Ou bastaria que as mídias de massa, como a novela das oito, entre outras, mostrassem a imagem do negro como um ser humano qualquer, com as mesmas "dificuldades" e "prosperidades" de qualquer branco que ali estivesse? Pois as duas oportunidades que surgiram, onde um negro não era empregado doméstico ou algo parecido, a família negra era completamente desestruturada(Filha louca, filho alcoólatra e pai corrupto)ou então a protagonista da novela vive sendo humilhada por conta de um acidente que uma menina mimada sofreu.
Bastaria permitir que o negro pudesse trabalhar dignamente e sustentar seus filhos, para que os mesmos pudessem focar o estudo como prioridade.
Mas acho q o que mais faria diferença, seria se o próprio negro não discriminasse a sí mesmo e aos seus...
A consciência é algo que vem de dentro... É algo que está em nós.
Adorei o texto.
bjus

Rafaela Figueiredo disse...

excelente, Cris!!
tem de ser lido muita gente!

mas pensemos positivo: dia da 'consciência negra' como pedido e não como afirmação!
taí, por exemplo, a grande demanda de lits. africanas chegando aos pouquinhos, mas notavelmente. ;)

beijão

*claro q vc está, sutilmente, inserido na dedicatória do último post, querido! esteja certo!
o/

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